Arquivos da Categoria: Preconceito

Aluno envolvido no “Rodeio das Gordas” é condenado a pagar R$20 mil

Por Renata Poskus Vaz

Há quase 3 anos, noticiamos aqui no Blog Mulherão (leia aqui) que alunos da  Unesp – Universidade Estadual Paulista, organizaram um “Rodeio das Gordas”, em que alunas eram humilhadas e agarradas por colegas de faculdade que simulavam um rodeio.

A “brincadeira” foi parar na justiça. Alunos fizeram um acordo com o Ministério Público e pagaram 20 salários míninos para instituições filantrópicas. O bonitão que não quis assinar o acordo, foi condenado agora a pagar R$20 mil, ou seja, 30 salários mínimos, como dano moral.

Que fique o exemplo.

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Amor plus size: quando o mulherão ama um gordo

Por Renata Poskus Vaz

Amor não tem forma, não tem corpo, não tem curvas, não tem barriga tanquinho. Simples. Mas muita gente ignora isso. Sempre falamos aqui sobre o amor entre pessoas com corpos diferentes e a dificuldade que esses casais enfrentam ao assumir seus relacionamentos. Narramos, por diversas vezes, o desafio que homens magros e com corpo atlético encontram ao namorar uma gordinha. Eles sofrem preconceito sim, ficam à mercê de piadinhas, já que poderiam, aos olhos dos outros, namorar uma “mulher melhor” (leia-se: mais magra).  Tem que ser muito macho para assumir para os amigos e para a família que se gosta de uma gorda.  Afinal, quase ninguém se interessa em saber o quanto somos maravilhosas e interessantes, apenas se limitam a olhar a nossa forma, o nosso exterior.

Para algumas de nós, mulherões acima do peso, namorar um cara sarado faz parte do pacotão da mulher bem-resolvida com seu próprio peso. “Olha só, sou gorda e namoro um saradão”, é o que muitas pensam. Não, não estou dizendo que toda gorda veja no atleta gostosão um troféu, mas não há como negar a satisfação que é desfilar com um homem lindo, admirável e invejável por aí.

Porém, nesses 4 anos de Blog Mulherão, quantas vezes falamos sobre casais de gordos? É como se desprezássemos que uma mulher bem-resolvida gorda pode ser muito feliz e realizada com um homem igualmente gordo.

 E porque ignoramos isso? Porque não compartilhamos em nossas redes sociais a imagem de um gordo e uma gorda, como sinônimo de amor verdadeiro e realização? Homem gordo com mulher gorda não sofre preconceito? Ah, sofre sim! Mas a gente acaba desprezando isso, como se o amor entre “iguais” não gerasse nenhum tipo de rejeição por parte daqueles que os cercam.

 É comum pessoas gordas começarem a namorar e suas famílias e amigos reprovarem a união. “Agora ele vai engordar ainda mais namorando com esta gordinha”, pensam aquelas pessoas próximas do rapaz. No caso da família da gorda, a ideia preconceituosa quase sempre é a de que o rapaz é relaxado, ocioso, incapaz de cuidar dela como merece. Bobagem, claro. Mas quem é gordo e já namorou outro gordo, sabe bem do que estou falando. Ah, isso sem contar os desafios do dia a dia, como sentar confortavelmente em poltronas, lado a lado, namorando no escurinho do cinema.

Cléo Fernandes e Luiz Henrique Frotscher em ensaio sensual exaltam o amor plus size

Pensando nessas questões, os modelos plus size Cléo Fernandes e Luiz Henrique Frotscher sugeriram um ensaio diferente para o fotógrafo Reinaldo Junkes. Após uma sessão de fotos para uma marca de moda plus size, a dupla encarnou um casal apaixonado.

“Eu já vi diversos ensaios sensuais com casais de magros, ou com uma gorda e um homem magro, mas nunca com um casal de gordos. A proposta era de expressarmos envolvimento, desejo e conquista, servindo de inspiração para quebra de paradigmas. Gordos também podem e devem ser sensuais e não ter vergonha de ir à luta pelo seu amor”, afirma Luiz Henrique.

“Queríamos Ilustrar esse amor de forma sutil, delicada e ao mesmo tempo, intensa” completa Cléo.

 O ensaio ficou lindo! E me sinto honrada em dividir em primeira mão as fotos com vocês, leitoras do Blog Mulherão. Muito amor para todas nós, sendo seus parceiros gordos ou magros. Ou não tendo parceiros também!

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Preta e gorda

Por Renata Poskus Vaz

Hoje é comemorado o Dia da Consciência Negra em diversas cidades do País. Como se trata de um ponto facultativo, nem todas as cidades aderiram ao feriado. Mas uma coisa é certa, nesse dia 20 de Novembro, sites, blogs e demais redes sociais estarão inundadas de matérias sobre preconceito, direitos e conquistas de cidadãos brasileiros da raça negra. Hoje, todo mundo virará militante da causa negra de carteirinha.

Lidiane Machado

Eu não queria ser mais uma dessas, só mais uma blogueirazinha cumprindo sua média social, criando uma matéria para esta data, sem ter feito nada antes para contribir com a discussão dessa temática. Há semanas, por sugestão de Lidiane Machado, uma linda modelo plus size negra carioca, já vinha rabiscando um artigo sobre este tema. Entrevistei algumas pessoas e pedi que me enviassem suas respostas antes do dia 20, para evitar a coincidência. Hoje, recebi uma das respostas. Logo pensei, chateada: “poxa, só agora fui receber?”. Acho que estava sentindo um medo danado de publicar algo hoje e todo mundo achar que só estava escrevendo porque era o Dia da Consciência Negra. Talvez, até sentisse minha consciência branca um pouco pesada: “eu não poderia ter abordado mais sobre racismo em meu blog nesses últimos 4 anos? Não poderia ter ajudado mais? Fui deixar para falar sobre isso somente agora?”. Porém, entre falar e me calar, entre contribuir e ignorar, eu preferi agir!

Ao longo dessa semana, vou publicar inúmeras entrevistas com profissionais negras e gordas. Mas a primeira delas, a de hoje, é uma das mais especiais para mim.

Faz algum tempo que eu encontrei no Facebook uma comunidade chamada Preta&Gorda. Sim, diretíssima, sem diminutivos e nenhum nhenhenhém. O nome pode chocar os “politicamente corretos”, eu sei. Lembro de quando criei o Blog Mulherão e achava o cúmulo alguém ser chamado de Gordo. Hoje, com uma autoestima um pouco mais elevada, percebi que os diminutivos, como “gordinha”, “fofinha”, “cheinha”, podem ser muito mais cruéis conosco e, ao invés de passar uma sensação de carinho, às vezes transmitem a idéia de alguém pequenino como ser humano, digno de pena. Porém, muita gente ainda não gosta de ser chamada de gorda, mesmo tendo passado dos três dígitos da balança há muito tempo, fato.

Já de preta, há inúmeras mulheres que se autointitulam dessa forma. Ou homens negros que de forma carinhosa se referem assim sobre suas esposas. Todavia, uma mulher branca não ousa chamar de preta outra mulher. Já me arrisquei uma vez e ouvi: “preta é cor, negra é raça”. Aí você se sente a maior das racistas e se cala pra sempre, até ver no Facebook uma comunidade chamada Preta&Gorda.

Amber Riley, atriz e cantora, uma das imagens compartilhadas por Preta&Gorda

Preta&Gorda compartilha imagens e mensagens sobre mulheres gordas, negras, lindas e estilosas no Facebook, para servir de exemplo para outras mulheres, que não encontram nos catálogos e desfiles de moda mulheres da mesma raça.  Você pode achar que criar uma comunidade só para negras é racismo ao contrário. Então, pare para pensar em quando surgiram os blogs de gordinhas aqui no Brasil. Muita gente insinuou que as blogueiras GG estariam discriminando as magras, ou se fechando em um mundinho paralelo, que só criaria mais preconceito contra nós. E não foi o que aconteceu (com raras exceções, claro). Conseguimos reunir forças, recuperar a autoestima e, finalmente, sermos ouvidas. Uma nova comunidade reunindo e dando forças para as gordas da raça negra é um progresso, um passo adiante dos que já demos até então. Na minha opinião, alguns assuntos poderiam ser tratados na comunidade de forma menos agressiva e com mais respeito às divergências de opiniões (se bem que aqui no Blog Mulherão eu também não sou lá muito maleável). Vi algumas brigas e algumas pessoas queridas, que muito contribuem pelo crescimento do mercado plus size saindo magoadas de discussões lá na Preta&Gorda. Porém, essa é só minha opinião. E como sou só gorda, não sou negra, por mais que tente me colocar no lugar daquelas que já foram discriminadas por conta da raça, só posso ficar no campo da suposição. Jamais senti na pele esse tipo de discriminação.

Entrevistei a Alessandra que, junto com o Maicon, administra a comunidade Preta&Gorda no Facebok.  Leiam na íntegra:

Mulherão: Qual a motivação de criar uma página exclusiva para as mulheres acima do peso da raça negra?

Alessandra: Pra mim, Alessandra, a princípio foi algo voltado para minha auto-afirmação. Sou militante do Movimento Negro e sempre me indispus com todo este sistema que excluí todos aqueles que são considerados “fora dos padrões”. Sou gorda e sempre acreditei que não preciso mudar para agradar a ninguém a não ser a mim mesma. Enquanto eu estiver bem comigo mesma, a opinião das pessoas não tem de me importar. Como gorda, participava de grupos de discussão na internet, tinha o meu próprio grupo, acompanhava as postagens e tal, mas sempre notei uma exclusão já ali. Fotos de mulheres eram postadas, mas as que tinham maior número de curtições e elogios eram das moças brancas. As pretas, em geral, ou não se manifestavam, ou não tinham o mesmo reconhecimento de todos (homens e mulheres) como belas. Sempre fui muito crítica. Então, um belo dia, escrevi um texto de desabafo no meu perfil do Facebook tocando neste assunto, sobre a invisibilidade da mulher preta e principalmente quando ela é gorda. E isso chamou a atenção de muita gente, inclusive de uma amiga que é fat militante há anos. Começamos a conversar dentro deste contexto e ela, mesmo sendo branca, reconheceu que existe uma mega exclusão das mulheres pretas no meio Plus. Publiquei no Blog dela, e para minha surpresa, uma chuva de moças pretas assumidíssimas começou a desabafar! Achei lindo! Gosto do movimento do meu povo! Gosto quando eles vestem a roupagem de luta! Foi aí que eu percebi, que este sentimento, estava abafado dentro de mta gente. Então eu encaro a page como um desabafo de mais de 2.000 pessoas (em sua grande maioria mulheres) dizendo que existe algo de errado e que precisa urgentemente ser acertado.

Mulherão: Qual a sua visão sobre o mercado de trabalho para as modelos plus size negras?

Alessandra: Nulo. Dentro de um contexto amplo? Nulo. Tendo em vista o fato da população preta ser maioria. Questão de números. Existem modelos pretas lindíssimas que estão sem trabalho. Pessoas queridas com muito talento que não tem oportunidade de trabalhar porque o mercado simplesmente não está aberto a elas. Existem algumas pessoas que colocam pretas em seus catálogos, mas, sinceramente? Se não for feita uma campanha séria que realmente mova o mercado plus a abrir os olhos e as portas para as mulheres pretas (e homens também), a inclusão das meninas será por cumprimento de Lei. Nada mais além disso. Supondo que uma agência tenha 100 modelos, 10 são pretas? Onde está a igualdade nisto? Onde está a representatividade das moças dentro dos desfiles. Porque eu, como preta, sou obrigada a ser representada por uma mulher branca, loira? Porque eu não posso me ver também? Porque dizem para as moças que mulher preta não vende? Não vende? Lembro-me que a uns anos atrás o papo era que gordo não vendia… E olha aí todo mundo andando na moda! Agora preto não compra roupa? Quero ver uma negra vestindo uma roupa legal, que combine com o meu jeito de ser, com meu estilo, para que eu me veja também.

Mulherão: Eu li em alguns posts você falando que a preferência de modelos brancas ao invés de negras para estrelar catálogos é racismo. Na sua opinião, esse racismo é algo enraizado ou acha que as grifes fazem de propósito?

Alessandra: Racismo sempre está enraizado. Isso é algo que dificilmente mudará. De propósito? Sim é de propósito, como o racismo é cultural a discriminação por cor é o racismo em ação. Portanto, normal as grifes fazerem isso. O racismo é simplesmente manutenção de poder caucasiano não deixando ter acesso os pretos(as) em todos níveis sociais. Elas acham que realmente não são racistas, mas excluem naturalmente.

Silvia Neves: ela se autointitula negra, mas a consideram clara demais para ser negra.

Mulherão: No Fashion Weekend Plus Size há poucas modelos negras: Silvia Neves, Erica Calderal e Juliana Ferreira. Elas se intitulam negras, mas muitas vezes são censuradas por as considerarem muito claras para serem negras. O que acha disso?

Alessandra: Acho que o orgulho de ser preta independe da sua tonalidade da pele. Até porque aqui no Brasil, encontramos pretos e pretas em inúmeras pigmentações. Isso é genética. O que verdadeiramente define sua negritude não é apenas seus traços africanos, e sim o somatório destes traços com sua afirmação e posicionamento político e afrocentrado dentro deste contexto. Pretas que possuem pele mais clara mas que exalam e afirmam sua negritude diante de toda adversidade que encontram dentro do universo fashion, merece nossa total admiração! O que muitas pessoas não conseguem entender é que uma pessoa se intitular preta, é mais do que se orgulhar de quem é e de sua ancestralidade… É uma maneira também de protestar contra todo sistema excludente que nos cerca, que quer inclusive determinar quem somos e quais as ‘qualificações’ necessárias para sermos ou não pretas. Quanto as pessoas que as censuram, estão querendo chamá-las de mestiças. Uma forma sutil de diminuí-las e negar a participação das moças como pretas. Quantas pretas já ouviram assim “Não… Você não é preta! Que isso! Você é uma morena linda!”? Isso é uma forma sutil de dizer que não existe beleza em ser preta. Que para você ser aceita, tem de ser ‘morena’… Quanto mais “clarinha” você se afirmar, mais a sociedade vai te aceitar. Só que se as meninas se consideram pretas e batalham por representar as pretas, é como pretas que elas tem de ser reconhecidas e nada menos que isto. Coibí-las é racismo. Preterí-las também.

Quando se descreve como negra na internet, Erica Calderal também deixa muitas pessoas surpresas

Mulherão: No mercado tradicional, o das modelos magrinhas, não é muito diferente. Você acha que o mercado plus size também vai demorar para reconhecer as modelos negras? Qual a sua sugestão para alterar esse cenário?

Alessandra: O meio fashion é muito preconceituoso. Independente da forma física, dificilmente vemos pessoas pretas fazendo parte de desfiles. Isso é uma problemática antiga. Sim, o processo é lento… Muito lento. Mas não é impossível. Os pretos tem esta marca de sempre ter de batalhar muito e dobrado para conseguir um objetivo, e quanto a isto, não será diferente. Sabemos disso. Minha sugestão é a auto-afirmação. O que temos feito na nossa comunidade. As mulheres pretas precisam assumir-se pretas e acreditar que tudo o que disseram sobre sua aparência não passa de uma estratégia racista para diminuir nossa auto-estima. Isso é uma terrível tática de guerra, que funcionou durante séculos, mas que felizmente temos conseguido vencer. Temos de ter orgulho de nós mesmas e de nossa raiz e lutar para que sejamos reconhecidas e respeitadas como somos e pelo que somos. Acho que esta é a chave.

Juliana Ferreira, uma das modelos mais solicitadas pelas grifes do FWPS

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Todo esse processo para conseguir a entrevista com a Alessandra foi bem difícil. Ela estava temerosa que sua ideologia e viés político não fossem respeitados. Eu, uma simples jornalista gorda, branquela e organizadora de um evento de moda plus size que se enquadra nos citados por ela, com apenas 3 modelos negras em um grupo de 28 modelos, tentei, a todo custo, provar que sei da situação atual do mercado, que não concordo com ela e que estou disposta a ajudar a mudá-la. Afinal, ao contrário de muita gorda que fica sentada na frente do computador atacando, ofendendo e depreciando quem se predipõe a fazer alguma coisa por nossas plus size, eu sempre estou disposta a contribuir. Fiquei relatando minha experiência a frente do Portal Negritude do qual fui editora, numa tentativa desesperada de mostrar: “olha, sou legal, acredite em mim”. E é por este motivo que colei suas respostas na íntegra.

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Lembro-me quando iniciei minhas atividades no Blog Mulherão e recebia alguns e-mails dizendo que eu era racista, porque no Dia de Modelo só havia participantes brancas. Uma bobagem! O Dia de Modelo não é filantrópico, é um evento custeado pelas participantes e eu não tinha como obrigar nenhuma negra a pagar e participar, e nem era essa minha intenção. Notoriamente, naquele início, a participação de negras era bem menor.  Segundo Alessandra, esse fato poderia se justificar pelo medo da rejeição. “A mulher preta por si só já tem auto-estima baixíssima por conta do racismo e todas as formas de exclusão e perda de identidade que ele acarreta. A mulher gorda de modo geral nem se fala… Somos tidas como ET´S pelos demais… Então a mulher preta e gorda tem o dobro de dificuldade de acreditar que é linda e que pode fazer o que bem entender.”.

Já no Fashion Weekend Plus Size, as marcas que desfilam são orientados por mim a privilegiar a diversidade de raças em seus castings. Porém, a melhor forma das confecções entenderem essa necessidade e ampliarem seus quadros de modelos deve partir de vocês, consumidoras de moda plus size. Escrevam para os estilistas e manifestem suas opiniões nas redes sociais. Claro, de forma educada e construtiva, pois no momento em que a Militância vira Ignorância, ela perde o seu efeito.

Para acompanhar a Preta & Gorda, clique aqui.

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Como reagir quando seu médico te discrimina por ser gorda

Por Vitor Mattoso

Veja o e-mail que recebemos de uma de nossas leitoras questionando a forma como os mpedicos tratam pacientes obesas:

“Escrevo porque gostaria de ver a opinião de vocês sobre uma coisa que tem me incomodado bastante nos últimos tempos: a falta de respeito com que profissionais de saúde tratam a mulher gordinha. Vi esta notícia aqui e me identifiquei:

Comigo não chegou a tanto, mas noto uma evidente má-vontade dos médicos quando vou consultá-los. Pra ser sincera, tenho até evitado ir ao médico, porque tudo que me acontece ultimamente, para eles, é culpa da gordura. Não nego que a obesidade traz problemas de saúde nem acredito que o médico não pense na nossa saúde. Mas o que venho notando é que, para eles, o fato de estar gordo dá a eles o direito de humilhar o paciente e fazer diagnósticos apressados, muitas vezes sem nem ouvir o que temos a dizer. 
Digo por mim mesma. Tenho SOP (síndrome do ovário policístico) desde que comecei a menstruar. Todos os sintomas estão lá: menstruação abundante e dolorida, pelos em excesso pelo corpo, etc. Nunca consegui encontrar um médico que me desse um tratamento eficaz e fui, para minha infelicidade, tentar de novo, desta vez com uma médica. Depois de me examinar, ela veio me dizer que a SOP é causada pela obesidade (!!!) e que eu precisava de ajuda. Olhem, desde os 12 anos eu menstruo. Desde essa idade sofro com os sintomas. E eu era magra. Estou com 33 anos agora, será que não conheço meu corpo? De nada adiantou eu dizer a ela há quanto tempo tenho o problema. A médica disse estar ‘convencida’ de que minha obesidade está envolvida nisso e que, se eu estivesse magra,os sintomas seriam muito menores. Bom, ao que parece ela conhece mais da minha vida do que eu mesma. Lembro-me de, mesmo quando estava 30kg mais magra sofrer com a menstruação, a ponto de não conseguir levantar da cama. Ah, e lembro também de sempre ir à depiladora para remover os pelos do meu rosto. Quem sabe a cirgurgia que fiz, há 13 anos, para tirar um cisto de ovário do tamanho de uma laranja? E eu pesava pouco mais de sessenta quilos! (Tenho 1,59). No entanto, ela nem parecia ouvir o meu relato.
A médica pediu vários exames. Quase perguntei para quê ela estava fazendo isso, já que estava convencida do meu diagnóstico. Por que fazer exames, então? Não me entendam mal. Sei que devo cuidar da saúde, sei que a obesidade pode me trazer problemas. O que não me conformo é ser maltratada por um médico pelo fato de estar gorda, ou ter que ouvir insinuações, ou ser tachada de mentirosa, que foi o que essa médica praticamente fez. Ela ignorou meu histórico e pôs a culpa de tudo na minha obesidade. Saí de lá arrasada. Penso em fazer os exames, mas procurar outro médico para vê-los. Mas confesso que estou com medo, porque parece que está escrito na minha testa: ‘SOU GORDA, DOUTOR. ME HUMILHE!” É como se a magreza fosse pré-requisito para ser aceita, amada, bem-tratada por quem quer que seja. Me senti uma criminosa. E senti raiva. Porque posso mesmo estar precisando de ajuda. Mas não preciso ser humilhada para conseguir essa ajuda. Se a médica que consultei quis me chocar e me fazer acordar para o que quer que esteja na cabeça dela, o efeito foi o contrário. Não tenho a menor vontade de voltar a vê-la. 
Ao ver a notícia lamentável que citei no começo, percebi que não é só comigo. Deveríamos fazer alguma coisa para combater isso. Tenho certeza de que o médico que receitou um cadeado para essa moça nem vai ser punido. Pelo que soube, raramente o CRM condena um médico. Enquanto isso, continuaremos sendo alvo de bullying por parte de quem deveria cuidar de nós sem nos julgar. O tal juramento de Hipócrates, pelo jeito, foi parar no lixo. “

Resposta:

Querida Leitora,

Primeiramente, toda a equipe do Blog Mulherão agradece pela mensagem enviada, pois isso mostra a confiança depositada em nosso trabalho. Meu nome é Vitor Mattoso, e sou o mais novo recruta desta tropa de elite, que trabalha firme para mostrar que ser feliz independe de qualquer situação! Além de Advogado, sou Coordenador do Projeto BULLYING Nunca Mais , o qual irão conhecer melhor durante os próximos meses.
Sobre a notícia apresentada, não tenha dúvidas que todos nós também achamos um verdadeiro absurdo, e tenha certeza que uma das minhas razões de estar aqui é mudar esta realidade! Vamos, agora, cuidar especialmente de você, ok?! Não deixe de ir ao médico. Em primeiro lugar, por ser importante manter um programa de avaliação continuada; em segundo, por ter a certeza que você irá encontrar um profissional que é do seu agrado!
Eu mesmo já passei por uma situação semelhante, só que com problemas respiratórios! Até encontrar um médico de confiança, foram mais de 8 anos! Veja pelo lado positivo: você conhece muito bem o seu corpo e como ele reage em determinados períodos, concorda?! É só uma questão, agora, de acertar o profissional e ver como as coisas irão bem! Faça esses exames sim, leva até ela sim, e, caso não goste das respostas, procure outro médico sim! Sim, sim, sim, simples assim!
Em todas as profissões irão existir os bons profissionais e os “nada profissionais”, afinal, ser um PROFISSIONAL não é só ter um certificado bonitinho na parede. É amar, respirar e viver o que escolheu como forma de ajudar na construção de um mundo melhor!

Agora, vem a parte mais importante da resposta:

Você está PROIBIDA de pensar coisas negativas, ouviu?!?! Isso não irá ajudar em absolutamente nada!! Portanto, mocinha (“mocinha” sim, afinal, você tem apenas 33 aninhos), trate de levantar esta cabeça e pensar que você é mais do que tudo isso, e que pode conseguir tudo o que deseja! É só uma questão de ter a mente aberta e a atitude correta!
Sobre o seu pedido, tenho boas notícias: já estamos fazendo alguma coisa – ou melhor, MUITA coisa – para combater isso! Veja só a bela parceria que se formou entre o Blog Mulherão e o Projeto BULLYING Nunca Mais?!
E acredite: isso é apenas o começo! 2013 que nos aguarde!!

Fico à sua disposição, assim como de todas as leitoras (e leitores) do Blog Mulherão, naquilo que me julgarem útil e estiver ao meu alcance.

Vamos em frente!

Vitor Mattoso
www.vitormattoso.com.br

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Desafio Mulherão: “Sou gordinha e amo um magrinho”

Por Renata Poskus Vaz

Ontem recebi um e-mail longuíssimo de uma leitora, pedindo ajuda para resolver um conflito pessoal. Ela, gordinha e reclusa em casa por vergonha do próprio peso, conheceu um rapaz há mais de um ano pela internet. Sente-se apaixonada, mas tem medo da reação dele quando a conhecer pessoalmente. Segundo a leitora, ele só a viu por fotos de rosto e também se diz apaixonado e nem sabe que ela é gorda. Essa é a história resumida.

Eu fiquei um pouco assustada porque a leitora realmente se mostrou desesperada. Porém, eu pouco poderia ajudá-la com conselhos. Palavras podem entrar por um ouvido e sair pelo outro se não mostrarmos na prática que é possível ser feliz e realizada no campo afetivo, mesmo sendo gorda. Para ajudá-la neste primeiro encontro recorri ao socorro de outras leitoras. Solicitei no Fcebook que elas contassem como conheceram  e conquistaram seus maridos magrinhos. Nada como ver belos exemplos, histórias de amor que deram certo, independente do peso, não é?  Espero que sirva de inspiração!

Jobi Feschyll – ” o ex terminou comigo porque eu estava gorda, mas meu marido atual me ama como eu sou”

“Conheci meu marido Benhur por intermédio de um amigo em comum. Começamos a conversar pelo MSN e não tínhamos interesse um no outro desde o início. Na época, eu tinha recém-saído de um relacionamento cujo meu ex não aceitava gordinha. Com o tempo, eu e Benhur percebemos cada vez mais que tínhamos muito em comum e mesmo o que tínhamos de diferente completavam  um ao outro. Ele sempre soube que eu era gorda, nunca escondi dele nem em fotos, nem na webcam, em nada. Num belo final de semana chuvoso, ele foi para a minha cidade para nos conhecermos pessoalmente e logo começamos a namorar. Nos casamos dia 04/12/2011 e estamos juntos até então. Ele é magrinho e nem por isso não o amo. Sou gorda, mais ainda do que quando nos conhecemos, e nem por isso ele deixou de me amar, ou seja, não importa ser magra, “corpão malhado”, que seja! O importante é como você é de verdade!”

Kelly Medeiros – “eu pego, mas não me apego”

” Tenho 23 anos e meu namorado Leonel Silva tem 28 anos. Somos vizinhos e eu ficava olhando ele do outro lado da rua. Na época, ele tinha 23 anos e era solteiro. Eu sempre dizia para mim mesma a frase: ‘Eu pego mais não me apego’. Ele sempre me achou atraente até que um dia ele entrou na academia que eu treinava e nos conhecemos melhor. Namoramos há 6 anos e lembro de uma história que ele contou uma vez que também conversou com uma menina na internet e ela disse que pesava 70 quilos e ele não ficou com ela. Eu tenho 95 quilos e ele me ama muito!! Somos felizes e o fato de ser gordinha nunca empatou a nossa vida em nada. Tenho certeza que o problema não são os quilos a mais e sim a confiança que passamos para o parceiro. Hoje me sinto mais confiante, atraente e muito mais feliz pesando 95 quilos. “

Larissa Bovolin – “eu pensava que ele estava olhando para minhas amigas magras”

“Conheci o Junio no dia do meu aniversário de 15 anos. Eu já era gordinha e ele magro. Na ocasião, comemorava com minhas amigas em um parque de diversões no Interior de São Paulo, quando Junio passou e ficou me olhando, embora eu tivesse pensado que ele estava olhando para minhas amigas magras. Depois, ele se aproximou com sua moto e perguntou se eu tinha namorado, pediu meu telefone e ainda me deu um beijo na boca de despedida. Ele me ligou logo no dia seguinte, começamos a namorar. Muitas pessoas olhavam com estranhamento o Junio magro comigo gorda. Sou filha caçula e o Junio é 10 anos mais velho do que eu. Meu pai sentiu ciúmes e chegamos até mesmo a nos encontrar às escondidas. Estamos juntos há 7 Anos, 6 meses e 16 dias. Estamos casados há 8 meses e ele até ficou mais gordinho. Somos felizes e só posso dizer que não temos que ter vergonha de nossa aparência, o que importa é o amor que um sente pelo outro.”

Ada Cristina -” no primeiro encontro escolhi uma roupa que valorizava as minhas curvas”

“A minha história começou em janeiro de 2011, quando conheci o meu marido através de uma rede de relacionamento. Ele, atleta, praticante do ciclismo, magrinho. Eu, gordinha, sedentária, a preguiça em pessoa! No primeiro encontro fui bem bonita, com um vestido que realçava as minhas curvas protuberantes, apesar de já ter contado sobre o meu físico,não queria assustá-lo. Tudo correu bem, até que ele resolveu me apresentar à família, após três meses de namoro. Eles me trataram bem, apesar de ouvir algumas coisas sobre saúde, comidas naturais, mas preferi curtir o momento. Em julho, ele pediu a minha mão em casamento e em dezembro, dia do meu aniversário, nos casamos e estamos juntos até hoje. Ele nunca pediu para que eu mudasse. Só fiquei sabendo um pouco da resistência de seus pais após estarmos casados há três meses e hoje eles estão super felizes comigo, com a forma que eu trato o meu marido. Eu o amo demais. O que realmente vale não é o lado de fora, mas sim, o que temos dentro de nós: caráter, amor, respeito, honestidade… isso vale muito mais que os quilos a mais que tenho.”

Tatiana Almeida – “Ele largou a uma magrinha para namorar comigo”

“Namoro há 4 anos e moramos juntos há 1. Quando conheci o Odair ele namorava com uma moça magra, mas depois de um mês ele terminou aquele relacionamento e começou a namorar comigo. Ele conta até hoje que se apaixonou pelas minhas curvas e que foi amor à primeira vista. Ele é magro e sempre coloca apelidinhos carinhosos em mim como “gordinha fofuxinha da minha vida” e assim vamos levando a nossa vida felizes. Não me importo de ser gordinha, tem muita gente por aí que está em forma, mas não tem conteúdo.”

Evelyn – “meu namorado magrinho é fanático por gordinhas”

“Meu namorado é fanático por gordinhas. Bom, por eu ter dito que ele é fanático por gordinhas, vocês devem ter imaginado que ele é um gordinho, fofinho, tudo de bonitinho. Ele é fofinho e muito bonitinho, mas está bem longe de ser gordinho. Ele é muito, muito – repetindo -  muito magro! E quer saber de uma coisa? Eu amo o fato dele ser magrinho. Literalmente não atrapalha em nada. Sei lá, acho sexy clavículas e ele tem uma que… Nossa!!! E eu adoro sentir as costas dele,  que não são largas, até porque eu não gosto de costas largas. Parece coisa de louca, mas eu gosto! E ele não é meu primeiro namorado magricelo (apelido carinhoso. Nada contra, adoro vocês mesmo). Se eu pudesse dar um conselho para a leitora que está com medo de se encontrar com o rapaz magrinho, saiba que todo magrinho adora uma gordinha. Aliás, todo magrinho só não, a maioria dos homens que sabem o que é bom preferem as gordinhas. Somos boas, bonitas, gostosas, graciosas, notáveis, e todas nós temos muito, muito amor pra dar.”

Thais Guinatti – ” Não damos a mínima para o preconceito das pessoas”

“Sou casada há 5 anos com o Técio. Nosso romance começou com uma forte amizade. O Técio é bem mais magro que eu, de quebra, mais baixo, e 3 anos mais jovem. Tinha medo de que eu não fosse a pessoa ideal para ele. Além dessas coisas , eu ainda era mãe solteira na época. Minha filha tinha apenas 1 aninho quando nos conhecemos. Mas o amor tem dessas coisas, não é ? Aos poucos fomos nos envolvendo, até o dia em que ele tomou coragem e, por telefone, disse tudo o que sentia por mim. Como éramos amigos há muito tempo, já nos conhecíamos muito bem, decidimos nos casar. Em três meses estávamos oficializando nossa união. Ele assumiu minha filha e, hoje, ela o chama de papai e as fotos podem mostrar: ela se parece mais com ele do que comigo! O Técio é muito gentil, e sempre faz questão de dizer que me acha linda. Ele ama as minhas “curvas” e sinto que ele é sincero. Ele me chama de mMinha modelo plus size” … Fico toda orgulhosa! É verdade que por onde passamos chamamos a atenção. Mas não damos a mínima importância para o preconceito das pessoas. Nosso amor não está onde as pessoas procuram e podem enxergar. Nosso amor não é casca deteriorável. Nosso amor é de coração… E isso a nossa felicidade pode mostrar !”

Flávia Telles: “tinha medo que ele ficasse reparando nas minhas estrias e celulites”

“Namoro um magrinho há 3 anos. Quando o conheci fiquei um pouco incomodada e receosa achando que ele ia fosse prestar atenção nas minhas celulites e gordurinhas. Mas depois que comecei a conhecê-lo bem, percebi que ele me achava linda gordinha. Já ouvi ele falando com os amigos dele que nunca gostou de mulher magrinha. Hoje estamos muito felizes. Ele engordou um pouquinho depois que comecei a cozinhar pra ele, mas ainda continua magrinho.”

Thalita Martins – ” A gente tem que primeiro se namorar, se amar, e os outros, naturalmente, o farão.”

Tenho 25 anos, 1,53m e 98kg. Há 1 ano e 9 meses conheci meu atual namorado pelo Facebook – temos um amigo em comum que “sugeriu” que formaríamos um bom par – e marcamos nosso encontro meio às escuras, já que a foto dele era minúscula e a minha era só do meu olho. Nos encontramos, conversamos, nos beijamos e nunca mais nos separamos. No início fique griladíssima, pensando que ele era bonito demais pra mim, que ele tava passando tempo comigo, que meu peso era um incômodo pra ele. Na verdade, meu peso era incômodo pra mim, o problema era comigo e minha autoestima que havia sido mais que rebaixada pelo último namorado. Ele me mostrou que não havia nada de errado em ser quem eu era, ele me valorizou exatamente como eu sou. Aliás, me chama de “gostosa” e outras coisas impublicáveis, hahaha. Ele aprecia minhas curvas e todo o conteúdo que as preenche. Ele me ensinou a me valorizar e eu sou eternamente grata. Por ter me ensinado a me amar, por ter me amado quando eu mesmo não sabia fazê-lo é que eu o amo ainda mais. É isso. Não há problema em namorar um magrinho, um gordinho, um altinho, um baixinho. A gente tem que primeiro se namorar, se amar, e os outros, naturalmente, o farão.”

Virginia Figueiredo: “somos a prova dos opostos que se atraem”

Eu e o Dri nos conhecemos no trabalho e nos tornamos amigos. Eu estava naquela fase do “se achar, se jogar, sair, dançar, beijar”. “Após atitudes mimadas de minha parte paramos de nos falar por longos 6 meses. Chega o jantar de confraternização da empresa e quem me dá carona? O Dri, todo educado! Eis que os dias se passam e muitos torpedos rolaram, conversávamos e eu, “acelerada como sou” o convidei para um cinema e no dia 08/03/2006. Começamos nossos passos juntos, somos a prova dos opostos que se atraem: ele magro x eu gordinha, ele ciclista x eu sedentária, ele saudável x eu só como porcaria, ele caseiro x eu baladeira… E ainda com todas as diferenças, ele não me desrespeita pela forma que sou, ainda me acha bonita, até onde eu sei, hahaha, mas pega no pé para eu me manter em dia com a saúde. Hoje, tenho o orgulho de ter encontrado o meu amor, meu marido, aquele que da uma paz só de estar por perto, que me faz querer ser uma pessoa melhor, que cuida de mim, que me ama e que me faz tão feliz… E assim foi, é e se Deus permitir, será ao longo dessa nossa vida aqui!”

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MAGROFOBIA

Há apenas uma coisa que me assusta mais do que o preconceito. É o preconceito cometido por aqueles que também já foram vítimas de preconceito. Você passa a vida inteira sendo ofendida por ser gorda e no dia em que recupera sua autoestima passa a discriminar aqueles que são diferentes de você. Confuso? Calma que eu vou explicar.

Preconceito contra as magras

Vira e mexe vejo mulheres gordas compartilhando imagens de magras no Facebook com dizeres que discriminam aquelas de silhueta menor. As frases variam pouco, quase sempre se restringem a: “quem gosta de osso é cachorro” ou “isso não é bonito (magreza), isso sim é bonito (sobrepeso)”. Fico me perguntando que mal fizeram as magras de nascença ou aquelas que emagreceram por algum problema. Assim como ninguém é obrigado a achar gorda bonita, ninguém é obrigado a gostar do corpo magro. Mas ficar aí disseminando ódio não rola. Como uma mulher que por tanto tempo sofreu discriminação por causa do seu excesso de peso pode esquecer que por trás daquela figura magra existe um ser humano, com sentimentos?

Se existe gordofobia, existe magrofobia, sim. O desafio está em ser feliz, ter autoestima sem precisar desqualificar ninguém por causa da sua silhueta. Esse preconceito também rola com as amigas que emagrecem, seja por cirurgia ou por opção. Enquanto é gorda é super bem aceita no grupo das amigas gordinhas. Ficou magra, já era. É banida ou recriminada por ter abandonado a “causa”. Talvez seja insegurança das magrofóbicas e não um desprezo verdadeiro. Mesmo assim, deve ser combatido.

Não consegui aquele emprego porque sou gorda!

Outro aspecto importante a se destacar é no que se diz respeito ao mercado de trabalho. Eu sempre fiquei muito com o pé atrás com os processos seletivos realizados por intermédio de empresas de recrutamento. Isso porque fica muito difícil, para mim, leiga, entender como uma pessoa que não trabalha na empresa que ofertou a vaga, seja capaz de decidir quais candidatos são ou não aptos para aquela vaga. Como julgar se as informações naquele currículo são ou não consistentes ou relevantes?

Todavia, já vi dezenas de pessoas gordas conseguindo emprego e tendo passado por dinâmicas e seletivas de empresas de recrutamento. Inclusive, tenho leitoras e amigas próximas que são gordas, muito bem resolvidas e com excelentes empregos e salários, exercendo, inclusive, cargos de chefia. Tendo isso em vista, como alegar que gordas não conseguem empregos por serem gordas? Sim, claro que isso deva ocorrer, pois os selecionadores são humanos e como quaisquer humanos, mesmo diante do exercício de suas atividades profissionais, podem discriminar um candidato feio, baixo, gordo, negro… Isso acontece. Mas não é regra! Portanto, não é desculpa ficar eternamente desempregada usando como argumento que selecionadores magros jamais a aprovariam.

Reavalie, inclusive, o seu currículo. Pessoas que conquistam vagas pelas quais você também pleiteou, podiam ser mais preparadas, já pensou nisso? Não desista!

Gente, ser gorda não é uma causa, uma bandeira e nem um estilo de vida. Ser gorda é uma condição física que pode mudar. Você tanto pode emagrecer, como também pode engordar mais 100 Kg e o desafio está em manter a sua essência, o seu caráter, sem se colocar eternamente na condição de vítima, sem menosprezar ou atacar aqueles diferentes de você.

 Ele só gosta de magra!

 Acusar um homem de preconceituoso ou gordofóbico por só gostar de mulheres magras é um exagero sem tamanho. Se o homem não faz nenhuma referência pejorativa às mulheres gordas, apenas diz que prefere magrinhas, que é louco por mulheres miúdas, ele não está sendo deselegante, apenas está manifestando uma preferência. Da mesma forma que elegemos o “muso” de nossas vidas, com características que admiramos e que variam de pessoa para pessoa, porque exigir que todo homem sinta atração sexual por você? Ninguém é obrigado a gostar de mulher gorda. Mas, felizmente, muitos adoram mulheres voluptuosas, repletas de curvas, como nós.

Então, se você se apaixonou por um homem que só gosta de magra, não adianta lutar contra isso. Você tem duas opções. Ou emagrece para tentar alguma chance de conquistá-lo ou viva como é, porque certamente um dia alguém vai valorizar cada curvinha que você tem.

 Segue, abaixo, um texto bacana sobre magrofobia:

Got sin? Gordas x magras

 

 

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Lamentável

Por Keka Demétrio

Lamentável. Esta foi a palavra menos pesada que encontrei para começar a responder a uma leitora que me enviou um e-mail dizendo que o namorado terminou o relacionamento porque não suportou a pressão dos amigos pela namorada ser gorda.

Sim, gorda. Dizem que jamais devemos chamar uma mulher de gorda, mas vamos falar claramente e sem hipocrisia: o que é uma mulher acima do peso? Fofinha, gordinha, fortinha, cheinha, plus size, dentre outros? Sim, estes são adjetivos que pessoas carinhosas usam para se referirem a mulheres cheias de curvas, mas no fundo, e nem tão lá no fundo assim, sabemos que o adjetivo certo é Gorda. Estou gorda e o primeiro passo é assumir esta condição, porque quando assumimos o nosso eu, as pessoas querendo ou não, vão ter que nos aceitar e respeitar. Quanto a gostar de nós isso é outra coisa.

Voltando ao e-mail da minha amiga, quero avisar a ela, e para um monte de amigas desavisadas, que o mundo está cheio de homens que definitivamente não gostam de mulheres gordas, há aqueles que nos adoram, e que se relacionam conosco com amor, respeito, desejo e tudo o que merecemos, há aqueles que gostam de gordas apenas para o sexo, e há ainda aqueles que adoram uma mulher como nós, mas que não são homens suficientes para assumirem isso. Enfim, cabe a cada uma de nós saber se prefere um homem com H ou um homem com h.

Tudo bem que existe a mídia que diz que mulher tem que ser magra, e toda essa ladainha que estamos cansadas de ouvir, ler e ver, mas onde fica o caráter, o gosto, a liberdade de escolha destes homens? Deixar uma mulher, ou não assumir um compromisso com ela, mesmo a querendo, a desejando, por causa do que as pessoas vão falar é perda demais de vida, de sonhos, de felicidade. Até quando as pessoas vão continuar a ignorar as próprias vontades, o próprio coração em detrimento ao que é melhor visualmente para eles em sociedade? Que droga de sociedade é essa, minha amiga, que este seu companheiro quer se firmar, onde o que vale é um passando por cima do outro sem respeitar a individualidade? Dinheiro, poder, status? Dinheiro não agüenta desaforo, poder acaba e status se perde, mas amor, companheirismo e afeto verdadeiros não se perde, não se acaba e juntos são fortes o suficiente para suportarem todos os desaforos que a vida impuser. Que tipo de amigo ele possui que não respeita seus sentimentos?

Uma mulher gorda pode ser linda, ou não, assim como uma mulher magra, depende de como ela se cuida, e principalmente da forma como ela se enxerga e se posiciona. Homem que despreza um amor pelo físico não ama, não respeita a mulher, quer apenas um enfeite para desfilar nas rodas hipócritas desta sociedade onde o TER vale mais do que o SER. Beleza é perecível, mas inteligência, cultura, educação, bons modos, princípios e valores são legados que fazem a nossa história valerem ou não à pena.

Não tenho vergonha de mim, e se tivesse, este seria o primeiro passo para afastar as pessoas que realmente fazem a diferença na minha vida, porque ninguém tem a obrigação de ficar ao lado de quem não se gosta e não se respeita.  Tenho um amor próprio maior que eu mesma que aprendi a alimentar depois de sofrer por longos anos um preconceito barato por sempre estar gorda. Aprendi a não dar ouvidos para gente pequena e insignificante e passei a ouvir mais meu coração e o que se passava dentro de mim, e sinceramente, isso me tornou o que nem eu mesma imaginava que um dia seria: dona da minha vida.

Tem um velho ditado que diz que conselho se fosse bom não era dado, mas vendido, portanto, não tome nada do que leu anteriormente como conselho, mas como algo que a leve a pensar se vale à pena ficar se culpando pela atitude de alguém que, embora no auge dos seus 30 anos, ainda não conseguiu formar o seu caráter e não ama nem a si mesmo. Não queira ao seu lado um homem que vê a mulher como um complemento, um alimento para a sua própria vaidade, mas deseje um homem que te admire, que sinta orgulho em estar ao seu lado pelo que você é, pela forma como conduz sua vida e pela luz que reflete em sua vida e principalmente na dele, independente do seu tipo físico.

E não tenha vergonha de chorar. Chore, pratique a choroterapia, coloque para fora toda essa mágoa, mas jamais se esqueça de quem você é e do valor que possui, porque, querida, coisas maravilhosas acontecem o tempo todo, e Deus sabe exatamente do que você precisa.

 

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Vergonha

Por Keka Demétrio

Dizem que ser forte é saber demonstrar alegria quando não se sente, sorrir quando se quer chorar, calar quando se quer gritar. Pode ser, mas também dou a isso o nome de auto enganação. Procurar estar feliz é um exercício diário e constante, e assim como qualquer tipo de exercício, tem dias em que a gente tá com preguiça. Nesses dias, me dou o direito de estar triste, de chorar e de ficar quieta no meu cantinho. A tristeza ás vezes é uma forma que a alma tem de nos chamar a atenção para certas coisas que gritam por ajustes. Diferente do que todos pensam a quietude que nos toma quando estamos tristes, deve ser aproveitada para uma autoanálise profunda e já que está triste, aproveita e coloca pra fora, nem que sejam em forma de lágrimas, dores que vem pesando o coração. Isso faz bem.  Ao menos para mim faz.

Não sei porque pessoas tem vergonha de chorar, de assumirem estar tristes, de dizerem ter problemas, ninguém se torna menos por  assumir ser humano, por ter coragem de se desnudar diante da vida. Acho até que é através dessas atitudes que conseguimos tornar a nos vestir com uma roupagem mais adequada, mais condizente e límpida.

É, não dá para ser forte o tempo todo. Penso até que deve ser um tanto quanto estressante querer ser politicamente correto 48 horas por dia, tentando agradar a gregos e troianos, menos a si mesmo. Pior que tem gente que se acostuma tanto a essa mediocridade, que nem percebe que está cavando a própria sepultura, porque no fim, mesmo os hipócritas preferem pessoas dotadas de autenticidade.

Eu choro, fico triste, faço minhas terapias malucas, que dão super certo, deito no divã de DEUS e oro muito, e isso não me permite ficar lamentando. O lamento é um sentimento pesado, viciante, que nos afasta da alegria, do prazer de viver. Quem só lamenta torna-se persona non grata, e acho muito triste quando alguém se aproxima e as pessoas quando a veem ‘torcem o nariz’, porque uma das grandes dádivas da vida é ver o sorriso estampar o rosto das pessoas quando elas nos veem chegando.  Por isso, quando começo a perceber que estou perdendo o brilho dou logo um jeito de jogar purpurina na vida e me agarro na certeza de quer fui feita para brilhar.

Não tenho receio em dizer que teve dias em que chorei tanto que pensei que iria desidratar, assim como também não me constrange dizer que tenho meus dias de tristeza e solidão, quando às vezes me procuro e não me encontro em mim mesma.

Mas prefiro assim, ser livre para sentir amor e dor, porque ambos os sentimentos nos acrescentam, nos fazem crescer e oferecem todas as respostas que insistimos em buscar no outro, lá do lado de fora da gente. E vergonha teria que ter se eu não respeitasse o meu lado humano, esse lado cheio de falhas, passível de erros, mas ávido por aprender a acertar.

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Gorda sim, por que não?

Por Keka Demétrio

Diante dessa avalanche de notícias, blog, sites, concursos e afins, posso dizer que a verdade é uma só: a maioria das mulheres estão afirmando que não se importam em estarem gordas, mas poucas são as que realmente se aceitam. Muitas ainda estão no caminho da autoaceitação e outras não se aceitam e nunca vão se aceitar. Fato. E mesmo se aceitando, ser ou estar gordo não é fácil para ninguém. Buscar a felicidade, e para isso ter que ir contra o que a maioria pensa ou determina, sempre foi motivo de sofrimento, porém, de crescimento e libertação.

A maioria das pessoas olha para quem está acima do peso com desdém, como se fossemos menos, como se capacidade fosse medida pela quantidade de quilos que possuímos. E isso arrasa qualquer pessoa. Embora os casos de obesidade possam ter diversos fatores, como genética, distúrbios físicos e emocionais, somos sempre vistos como quem está sempre cometendo o pecado da gula, desleixados e preguiçosos. Quer um exemplo claro? Quando numa festa ou restaurante uma mulher magra se levanta para se servir, ninguém nota o que ela colocou no prato, mas se for uma mulher gorda todo mundo fica reparando e diz: olha lá, por isto está gorda. E assim acontece em diversas outras áreas, somos observados sempre e na maioria das vezes para sermos criticados. Ou seja, de uma forma ou de outra incomodamos e as pessoas nos observam.

Acho tudo muito lindo quando vejo milhares de mulheres declarando se amarem. Tenho inúmeras leitoras, que me enchem de orgulho e alegria, porque muitas delas passaram a se cuidar através da leitura de alguns textos meus, onde, na verdade, eu estava querendo era chacoalhar a mim mesma. Por isso eu sei o quanto isso custa, quanta coragem é preciso para tirar essas palavras bonitas da boca e transformá-las em atitudes, em caminhos, em descobertas e estabelecer um novo modo de vida, enfrentando maledicência, estupidez de gente preconceituosa por alienação, porque não tem opinião própria e não sabe nem o que está dizendo.

Sabe aquele discurso que vivemos ouvindo sobre não precisar que ninguém nos aceite? Pois é, é mentira e nunca concordei com isso. O que sempre propus foi que antes de cobrarmos aceitação dos outros devemos nos aceitar primeiro. Poxa, vivemos em sociedade, e queremos sim que as pessoas nos aceitem, nos admirem, gostem da gente, e seria hipocrisia dizer que não se importa com isso. E sinto te informar que ninguém vai fazer isso antes que você mesmo se aceite, se admire e se goste.

Gosto não se discute e deve-se respeitar. Mas, só para citar como exemplo, alguns homens preferem estar ao lado de uma mulher magra e burra do que ao lado de uma mulher inteligente, descolada, culta, educada e gorda. E isso serve também para mulheres que preferem homens sarados e acéfalos, a estarem ao lado de homens inteligentes, que as valorizam e gordos. Sinto pena de gente assim, e quem for do sexo masculino e não quiser se aproximar de mim por causa do meu peso, por favor, não se aproxime mesmo, quero avisar que está me fazendo um grande favor, poupando-me e se poupando, porque minha preferência é por homens de verdade. E para aquelas que possuem ‘namorados’ que sentem vergonha de assumirem o ‘compromisso’, de as apresentarem para os amigos, digo para se valorizarem mais, porque se não, sempre terão como ‘companheiro’ alguém que pensa ser homem, mas que não passa de moleque.

Felicidade alheia incomoda, e se vier de uma gorda incomoda muito mais. Eu sei, eu sinto. No começo, quando essa onda de autoaceitação começou a crescer, percebia um monte de gente, diga-se mulheres, e alguns homens fúteis, me olhando de canto de olho como se eu fosse a maior das ridículas. Nestas horas, ao invés de marejar os olhos como acontecia anos atrás, eu dava um belo sorriso e fingia não notar, porque arma nenhuma é mais poderosa do que o desprezo, o ato de ignorar. Desta época para cá, comecei a fortalecer minhas idéias e percepções a respeito de mim e só eu sei quantas vezes dormi abraçada comigo mesma, como se a parte forte da Angélica quisesse acalentar e dar forças para a parte ainda doente e enfraquecida pelos anos de autoestima abaixo de zero.

Passei a focar no que eu queria ser, no que eu queria sentir, trabalhei meus pontos fracos e fortaleci o que sempre me evidenciou: minha alegria, meu sorriso e a minha sensibilidade. Pratico a terapia do Espelho, da Música e a Choroterapia, todas criadas por mim como forma de enfrentar a minhas fragilidades. Desenvolvi um trabalho mental de autoaceitação e amor próprio que excluiu da minha vida a vergonha de ser quem eu sempre fui: uma mulher gorda que tem todo o direito de ser e estar feliz, de buscar meu caminho, de lutar por meus sonhos e de não aceitar ser discriminada pelo tamanho do meu corpo. E de excluir da minha vida qualquer um que queira me fazer sentir menos do que sou.

Sou uma mulher acima do peso e sou feliz. Gosto de mim, aliás, me amo, exalo sensualidade, carisma, alegria de viver e não são poucas as pessoas que chegam perto de mim para dizer o quanto me admiram, e olha que tem muita magrinha corpinho de modelo fazendo isso. E homossexuais, também. Talvez porque eles sintam na pele o que é ser desrespeitado, humilhado e possam ver em mim uma mulher que tem tudo para ficar jogada dentro de casa vestida com uma roupa surrada, subir no salto, me jogar em meus vestidos, me maquiar, cuidar de mim e principalmente do meu sorriso. Encarando a vida sem medo do que os outros vão dizer, porque falar eles falam mesmo e minha energia é poderosa e abençoada demais para ser gasta me preocupando com esse tipo de coisa, prefiro investi-la no meu crescimento e aprimoramento intelectual e emocional.

Hoje, percebo que o que incomoda mais as pessoas não é o meu corpo roliço, mas a leveza da minha alma, o desprendimento que tenho em relação ao que prega o preconceito, e o amor próprio que faço questão de ressaltar. O incomodo que estas pessoas sentem é pela felicidade que tenho, e que elas, inconscientemente talvez nunca vão possuir, porque perdem tempo e energia demais em invejar o outro ao invés de ir atrás do que lhes é de direito, o direito de serem felizes. Não tenho um pingo de vergonha do que sou e de como estou, e por isso eu sempre digo: Sou gorda sim, e por que não?

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Rascunhos de casal

Por Eduardo Soares

Por mais que seja cena relativamente comum, não consigo ficar indiferente. Com esse negócio de Eurocopa, estou com a bendita camisa da Holanda na cabeça. Para quem não é familiarizado com futebol, imagine um uniforme cor de cenoura debaixo do sol de verão. É mais ou menos por aí.

Começo da noite, tinha acabado de sair do cinema e para passar o tempo resolvi procurar a tal camisa de futebol. Encontrei algo parecido. Acho que era o terceiro, quarto, nono uniforme do Barcelona. A tal cena comum vem agora. Minha atenção foi dividida entra a camisa e um belo casal que estava a dois metros de mim. O carinho, digamos, alternativo de ambos era impressionante. Lembro-me do seguinte diálogo:

- Você vai ficar desfilando na loja, mulé? Ou compra logo ou vamos embora, estou de saco cheio! Tu fica feito uma palhaça, não sabe o que quer da vida!

- Baixa a bola! Se não quer ficar, pode ir. Estou me lixando pra você. Vou ficar aqui o tempo que for, e daí? Vai me bater?

Isso foi apenas o começo. Mas o espaço (e o bom senso) não me permite reproduzir o restante dos mimos verbais. E nem vale a pena. O que eu vi, os caixas viram, o segurança viu e os clientes também foi uma sucessão interminável de impropérios e ameaças de agressão física. Sabe aquela pressão psicológica do tipo ”tem coragem? Duvido! Não me provoca! Olha que eu faço”. Bom, até onde eu vi, ninguém saiu no tapa pelos corredores do shopping. Mas, vai que num dia qualquer, a paciência de ambos atinja o limite que não era pra ser atingido e a pancadaria come solta? Olha a que ponto certas pessoas chegam a troco de..de…de quê?

O maior medo do navegador é encontrar uma tempestade em alto mar. Por mais experiente que seja, ele não tem como prever o que irá acontecer daqui a dez segundos com o oceano em tormenta. Pelo menos, caso tenha amor a vida, ele vai tentar sair dessa da melhor forma possível. Mal comparando, tem gente que não consegue sair daquela situação fadada ao fracasso. É como se o relacionamento ficasse preso ao redemoinho, sendo que, ao contrário do navegador, essa gente parece gostar de viver 24 horas por dia sobre o efeito da tormenta.

Adrenalina tem limite. Quer aventura? Vá praticar alpinismo, asa delta, bungee jumping, rapel, surf, skibunda no asfalto, jogar peteca revestida com urtiga. Brincar de “até onde posso ir” é desperdício de tempo e inteligência. O pior é quando o coração fica acostumado a esse tipo de situação. Pode pintar a pessoa mais carinhosa do mundo. Ela até poderá entrar, mas certamente vai ter uma participação relâmpago na vida de quem prefere viver à base de trovoadas.

Sinceramente, o conceito do “Entre tapas e beijos/É ódio é desejo/É sonho é ternura/(…)E assim vou vivendo/Sofrendo e querendo esse amor doentio…” serve apenas pra música ou seriado. Quando isso vira trilha sonora da relação, acredito ser a hora de trocar de rádio/CD.

Tem par que nasceu pra ser admirado e até invejado. Gente que serve como exemplo para vários. Outros, porém, preferem a pompa, o status, são verdadeiros mentirosos (ou mentirosos com síndrome da verdade), oficializam união, fazem votos, juras, assinam a certidão. Mas no fundo eles não passam de rascunhos de casal descasado.

Namoro, casamento, noivado. Não importa. Você a(o) escolheu e vice-versa. Ninguém apontou uma arma na sua cabeça para obrigá-lo(a) a estar com a pessoa de quem você gosta.

Por mais intimo que seja o casal, nenhuma das partes tem o direito de pulverizar o outro com vilipêndios e ameaças. E se isso for uma constante, seja inconstante. Ao encostar sua cabeça no travesseiro, pense nas próximas 24, 48, 72 horas. Vale realmente a pena entrar no redemoinho?

Segundo o dicionário, rascunhos são “trabalhos iniciais em que se fazem as correções necessárias antes de dar-lhes a forma definitiva”. Você é o único professor dos seus sentimentos. Observe o momento atual. Caso o rascunho do relacionamento demonstre contornos feios, veja se é possível haver correção.  Se incorrigível for, e se mesmo assim você optar em ir até o fim, receba duplamente meus parabéns. 1 – Persistência não lhe falta (sobra a falta de vergonha na cara); 2- Você traçou com perfeição o definhamento definitivo de toda sorte que a vida poderia lhe oferecer.

“Mas quem sofre sempre tem que procurar/
Pelo menos vir a achar/
Razão para viver/
Ver na vida algum motivo pra sonhar/
Ter um sonho todo azul/
Azul da cor do mar…”

Toca o barco, comandante…

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