Já tirou sarro de si mesma para evitar que os outros fizessem isso antes de você?

Por Renata Poskus Vaz

Quando eu era uma magra que se achava gorda e feia, eu tirava sarro de mim mesma. Era uma forma de impedir que me magoassem, me magoando de antemão. Vocês podem até achar exagero, mas desde pequena eu sofria ao receber apelidinhos que me magoavam. Na pré-escola eu era chamada de Rata Branca por uma servente negra. No ensino fundamental eu era a Maria Cebola, porque chorava demais.  E quanto mais me chamavam de Maria Cebola, mais eu chorava. E quanto mais eu chorava mais me chamavam de Maria Cebola. Lembro até das minhas professoras rindo das provocações o que me fazia me sentir, além de humilhada, desprotegida. Na Praia Grande, onde passava minhas férias escolares, eu era a “cabelo de miojo”. Acho que não preciso citar aqui o quanto sofri também com as zoações por conta da música “Lora Burra” de Gabriel o Pensador, não é mesmo?

 Fui crescendo assim, recebendo apelidinhos e rezando para que as pessoas os esquecessem e eu pudesse ser chamada apenas de Renata. Na adolescência, as  “muy amigas” deviam perceber que eu não me amava e ironizavam minhas roupas de patricinha, meu olho caído, minha ausência de bunda, meus seios volumosos, meus lábios finos, minha pele exageradamente branca etc. Obvio que eu não percebia que aquelas brincadeiras poderiam até mesmo ser fruto da inveja daquelas garotas. Eu acreditava em tudo. Então, para evitar que caçoassem de mim, eu já chegava nas reuniõezinhas colocando defeitos em mim mesma, para não deixar espaço para que zombassem de mim.

Já adulta, um pouco antes de criar o Blog Mulherão, eu freqüentava algumas comunidades no finado Orkut. Em uma delas, em que debatíamos diariamente, fiz muitos amigos. Com opiniões fortes, conquistei a admiração de alguns seguidores e ofusquei o brilho de algumas participantes mais antigas, que faziam piadinhas acerca de minha silhueta. Chamavam-me de baleia. Aquilo me magoava e por mais que eu pedisse para pararem, aquelas mulheres adultas continuavam insistindo na piada sem graça pela internet. Certa vez, ouve uma eleição para decidir quem seria a nova moderadora da comunidade. As pessoas mais populares se inscreveram. Então, tive a idéia de me inscrever também, com o nome “Renata Baleia”. Organizei até uma campanha, em que dizia que as pessoas deveriam confiar em mim, porque as baleias vivem em grupos, são dóceis e leais aos seus companheiros, além de serem resistentes ao percorrerem grandes distâncias sem se cansar. Mudei minha foto do perfil do Orkut pela de uma baleia dando um grande e poderoso salto no mar. E foi com essa publicidade e com a auto-zoação que eu ganhei a administração daquela concorrida comunidade.

No fundo, tirar sarro de mim mesma sem me amar de verdade, impedia que as pessoas continuassem a me xingar. Porém, aquilo ainda me magoava. Juro que eu gostaria de dizer que nunca sofri, que sempre me amei, mas isso não confere com a realidade. Eu me achava a mosquinha do cocô do cavalo do bandido e tive que percorrer um longo caminho até conseguir olhar no espelho e enxergar uma mulher linda, inteligente e muito gostosa.

Hoje, faço piada de mim mesma. Mas desta vez não como fazia antes, para me defender. Faço para me divertir. Antes, me autointitular “gorda” seria uma proteção. Hoje é algo normal, uma forma até carinhosa, porque a palavra e seu significado perderam aquela força negativa que exerciam sobre mim.

Um exemplo bacana de auto-tiração de sarro é o ídolo do UFC Anderson Silva. O lutador de MMA, admirado por todo o mundo por conta de suas habilidades em artes marciais e sobretudo por sua força, era ridicularizado por comentaristas de lutas e adversários. O motivo? Sua voz fininha, fininha, como a de um meninho prestes a entrar na puberdade. Após anos de gozações, Anderson Silva driblou as provocações, assumiu a voz fina e tirou sarro de si mesmo em um comercial do Burguer King, cujo slogan era: “Mega BK Stacker. Tão assutador que você afina”. Ele com certeza encheu o bolso de dinheiro com o comercial e transformou a piada sobre sua voz fina super ultrapassada dali em diante. Veja esse que considero uma das melhores propagandas de todos os tempos:

Há um blog muito bacana chamado Boboquice Digital que cita essa e outras auto-tirações de sarro para vocês assitirem e perceberem que até mesmo gente famosa sofre com piadas, perseguições, apelidos, mas que sempre é possível dar a volta por cima.

19 Comentários

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19 Respostas para “Já tirou sarro de si mesma para evitar que os outros fizessem isso antes de você?

  1. Renata, eu me identifiquei demais com esse post!
    Nas férias agora de julho, minha tia nos trouxe alguns DVD´s que ela recuperou de fitas vhs antigas, onde eu pude me ver a 11 anos atras, quando me achava uma baleia, e fazia exatamente como você, me ridicularizava, antes que alguém fizesse. Quando vi os vídeos, vi como eu era magra, gostosa, linda, tinha o cabelo maravilhoso, e como dava ouvidos a “amigas” e a pessoas que se incomodavam com uma mulher de 24 anos, com 1,77m e 96kg muito bem distribuídos, cheia de disposição criatividade, pele branca e lisinha!
    Passei por muitas e muitas coisas na infância e adolescência, sofri muito, e permiti que esse sofrimento acabasse com minha auto estima me destruindo gradativamente, chegando hoje a um estado mórbido, que não enxergo saída.

    • Carol

      Carla, pare com isso. Você ainda tem muito tempo para mudar o que você quiser em sua vida. Não seja boba e não se deixe afetar pelos outros. Quando somos mais jovens, somos imaturas também a ponto de qualquer sobrepeso virar um pesadelo. Anos mais tarde, vemos que gastamos nossa preocupação à toa, pois sempre fomos bonitas e não percebíamos isso. Também era mais magra do que sou hoje. Na adolescência pesava 70 kg… e hoje mataria alguém para voltar ao peso de antigamente e perder pelo menos uns 10kg…rsrsrsrs. Controle a alimentação, controle a ansiedade (eu tenho compulsão e quando vejo já comi meia barra de chocolate), faça o máximo que puder a pé e logo logo você verá que a auto-estima vai voltando. Eu me peso TODO SANTO DIA para não perder o controle e lembre-se: a pessoa mais importante da sua vida é você.

  2. Marcelli

    Poxa Renata, lendo seu artigo, observando a Carla também, analisando minha própria história, vejo como tivemos uma trajetória de negação de nós mesmas, e de mesma forma, quantas e quantas meninas sofreram dessa forma. Fico feliz em pensar que estamos JUNTAS NA VITÓRIA, Que hoje estamos a caminho da libertação do julgamento das pessoas, pois, a medida em que não nos sentimos mais ofendidas, o preconceito vira pó.
    LÍ ONTEM ESSA FRASE, QUE FECHA MUITO BEM COM O QUE EU DISSE:
    “Os outros nos vêem como nós nos vemos. Quanto mais respeito você tiver por si mesmo, mais respeito os outros terão por você. Ninguém poderá fazer com que você se sinta inferior se você não o consentir interiormente.”

  3. Bom Dia Renata,
    a pergunta que não quer calar é: Depois que vc se tornou a moderadora da comunidade continuou sendo alvo das brincadeiras nada engraçadas e/ou conseguiu excluir essas pessoas da comunidade?

    • renatavaz11

      Depois que eu me tornei moderadora da comunidade me autointitulando de baleia, elas viram que não tinham mais como me ofender. Talvez pensassem: “se xingar essa menina de outra coisa, ela pode usar isso mais uma vez a favor dela”. Não expulsei as pessoas, eu fiz de conta que sou fina. rsrsrsrs

  4. Exatamente assim que me senti a vida toda…sempre alvo de piadinhas, apelidos…beiçuda, cara de sono, e por aí vai…quanto tempo perdi, como me achava gorda e feia…pesando 57 quilos…um absurdo né? Hj peso 95…continuo tirando sarro de mim mesma e me sentindo péssima…vc me fez pensar que daqui 15 anos vou estar me lamentando da mesma maneira que agora…deixei o tempo passar,e vivi a vida toda sem me amar….

  5. Paula Regina

    Renata, parabéns por ser uma pessoa tão íntegra e tão corajosa a ponto de escrever e alertar tantas outras meninas, adolescentes em geral, que passam pelo mesmíssimo turbilhão físico-emocional.
    Ler que “minhas professoras rindo das provocações o que me fazia me sentir, além de humilhada, desprotegida”, é desolador para qualquer profissional de Educação. Ou seja, quem devia dar exemplos, é quem menos faz e quem mais corrobora com o agravo.

    Certa vez, eu escutei de uma Professora, profissional de Ensino, a um de seus alunos, menino negro, o seguinte:
    – Tá vendo ali na jaula o chimpanzé? é igualzinho ao seu pai!
    Preciso dizer que o humilhado garotinho, constrangidíssmo, ficou a tarde inteira de visita ao zoológico, escutando que era filho de macaco? Esse menino vai fazer o quê com a cor de sua pele no futuro? Arrancá-la?!

    Que seu relato, sua declaração sirva ora de amparo, ora de alerta a todos os que passam por isso; que consigam, de uma forma ou outra, entenderem que, quem mais critica o outro é quem mais precisa de autoconfiança, de colo, de carinho e de família presente, que faz bullying exatamente para não fazerem bullying com ele, que tira de si o sarro e passo o auto-sarro aos outros.

    bj grande.

  6. Renata

    Depois deste post, mudei meu conceito sobre vc! Ja te admirava, mas agora sinto orgulho por ti.
    Parabens pela sua coragem. Fiquei emocionada e com lagrimas nos olhos ao ler essas palavras. Mais do que por como tantas de nós se identificar com elas, mas acima de tudo pelo maravilhoso exemplo de humildade e coragem que vc acaba de dar aqui!

    Parabens Renata, vc é uma das raras pessoas nesta vida que se joga de corpo e alma na propria vida, sem tentar se esconder qdo convém…

    Abraço fraterno.

  7. Renata

    Ah, e mais uma coisa: EU, ASSIM COMO TANTA GENTE, TE ACHO LINDA DE CORPO, DE ROSTO, DE VOLCABULARIO, DE CEREBRO E DE ALMA. Sei que não precisa isso, mas digo pq é uma verdade pra mim.

    bj imenso

  8. gabriela

    eu sempre absolutamente sempre faço isso.

  9. Gisele Ruiva

    Engraçado, como isso é praticamente uma atitude quase “normal” de pessoas acima do peso, sempre sofri com as críticas, porquê além de gordinha, sempre fui muito branquinha, ruiva, do cabelo cacheado(até isso era motivo né…) e grandona, enfim, hoje eu continuo brincando com tudo isso, o cabelo mudou(graças a progressiva, hehe) mas continuo grandona, só que a minha maneira de ver tudo isso mudou, e automaticamente quem convive comigo vê que não adianta me criticar, isso nunca vai me derrubar como antes, e sim, achá-lo idiota…
    Beijos Renata, sua lindaaaa!!!!

  10. joseana

    eu ainda aofro com piadas,e nao superei fico triste demis auto estima la embaixo.sofro com isso desde criança…mais adorei seu post .bjo.

  11. Adorei Re, acho que esse é tal do bullying e não acredito que exista alguém nesse mundo que já não passou por isso, porque até as consideradas “perfeitas” são perseguidas. O importante mesmo é amadurecer e se divertir como você disse apenas para se defender e não se ofender. Bjo gata!

  12. zaninha

    Olé meninas, poxa adorei o texto, Re, vc é demais e escreve muito bem, recolheço suas emoções como se fossem minhas.Mas…gostaria um pouco mais, realmente será saudavel tirarmos o sarro de nós mesmas? COnheço milhares de pessoas que se “zoam”, apenas para que o outro perda o prazer de fazer isso antes, porém ainda não se valorizam de verdade, não se divertem com isso, e sofrem mais ainda.Em verdade, tenho pessoas bem próximas de mim, meu irmão de 13 anos, que tenho profunda paixao, e meu noivo.Ambos gordinhos, sempre estão se desvalorizando, de forma divertida, o problema é que eles começam a acreditar nas próprias palavras. Tem idéia de como posso agir nessas situações? qndo eles acabam de se “zuarem” e em seguida amargarem um sorriso amarelo em qnto tds se matam de dar risada?tento ate negar o q eles falam, sempre apontando uma qualidade deles, mas não funciona, por favor me ajudem…

  13. Lhivia

    Acho que todo mundo sofreu algum tipo de baixaria, mas outros passaram períodos praticamente inteiros com isso. Sinto que as pessoas que comentaram aqui são aquelas que sentiram isso na pele por um longo período.
    Fico muito feliz que você tenha conseguido se sair muito bem sem violência verbal, sem xingar o povo que lhe fazia mal. Pagar mal com o bem, acho que essa foi a saída perfeita.
    Além disso, você foi sua melhor amiga, para empurrar na sua cabecinha o quão linda você é. E cá entre nós, você é dona de um estilo impecável!
    Amo esse blog!

  14. Ana Paula Lima

    na epoca da escola sempre fui “zoada” por diversos motivos: cabelo, roupas fora da moda, tamanho (sempre fui mais alta da turma e gordinha) e chegou um tempo q era tantas provocações que passei a tirar sarro de mim mesma e ai as provocações foram diminuindo… mas hoje eu continuo com as brincadeiras tirando sarro de mim mesma mas com amigas…

  15. maria luiza

    Renata, eu fiquei sem entender: quando você deixou de ser a Baleia que precisa fazer piada de si mesma para se defender e passou a ser a Renata? Você teve que emagrecer para parar de ser zoada? Vi sua fotos e você não é gorda, por isso a minha dúvida… Eu sou gorda, me definir como gorda não me incomoda em nada pq é apenas a realidade, mas me dói demais fazer piada de mim mesma para tentar ser aceita, não me conformo em ser objeto de escárnio de ninguém, pq não valho menos como ser humano. Então eu acabo me isolando. Qual é o truque?

    • renatavaz11

      Eu não emagreci. E continuo fazendo piadas. E não sou gorfda, talvez, aos seus olhos, porque sou menos que você. A diferença é só dentro de mim. Antes eu fazia piada para me defender. Resgatei minha autoestima por outras vias… Trabalhando, estudando, fazendo uma autoavaliação diária. Aí, as piadas que faço hoje são para me divertir mesmo e não para usar como muleta ou defesa.

  16. Rsrsrsrss,é menina aprendi não me importo por se chamda de gordinha ou gorda,meu irmão me chama de Pandinha kkkkk,nem me importo mais,mais antigamente a palavra gorda me soava como se fosse a pior coisa,pois aprendi a me aceitar sempre fui muito zoeira ,risonha,tiradoura de sarro,mas sei zoar brincar pois apontar os outros não gosto, e acho ridiculo, pois somos seres maravilhosos cada um da sua forma, mais tiro sarro de mim msma,mas positivamente não para me auto proteger,pois
    ja me senti o patinho feio e hoje vejo que posso ser um cisne lindo,que me transformei,pois a vida nos ensina,e Deus esta comigo e nunca me abandonou….
    Beijão
    Da GORDA

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