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Não namore uma gorda.

Por Keka Demétrio

Tem dias que a gente não deveria levantar da cama, jogar a chave da porta do quarto no vaso sanitário e dar descarga.  Mas como não posso me dar a esse luxo, porque alguém precisa pagar as minhas contas e esse alguém sou euzinha mesmo, querendo, ou não, me levanto e vou trabalhar. É que nesses dias o nosso sexto sentido parece avisar que vai vir chateação.

Ontem meu dia foi assim, nenhuma 8ª maravilha do mundo, mas o ponto culminante foi ouvir um amigo dizendo para o outro (ambos trabalham na área da saúde): “Pô, além de você arrumar namorada que mora longe, ainda arrumou uma que vai ter problema de diabetes!”

Não consigo descrever para vocês a sensação que tive ao ouvir a infeliz frase, porque eram duas pessoas extremamente inteligentes conversando, e então percebi que dentre os dois, um se sobressaia pela inteligência emocional e a maturidade quando respondeu: “Eu nunca me importei se ela é gorda ou não, aliás, acho que ela é a mais linda e charmosa de todas por ter aquelas dobrinhas que me enlouquecem quando eu as aperto. E eu nunca a olhei com nenhum olhar que não de um homem apaixonado.” (uii, depois de ouvir isso quase me apresentei a ele…hehe)

Já tem um bom tempo que falamos sobre todo o tipo de preconceito que nós mulherões sofremos, e também como é importante trabalharmos nossas cabeças e sentimentos de forma a nos aceitarmos e encontrarmos dentro de nós mesmos a alegria em viver. Também falamos muito na importância de nos cuidarmos, de realizarmos exames periódicos, praticar algum exercício físico. Quando falo que sou feliz exatamente como sou não quer dizer que não controlo a minha alimentação, que não sou vaidosa, só que eu não faço disso o ponto central da minha felicidade, e procuro não dar o mínimo de valor para os preconceituosos de plantão, mas confesso que esse cara me apresentou outro tipo de preconceito em relação a quem é gordo que eu não sabia existir.

Quer dizer que temos que escolher com quem nos relacionar depois que a pessoa apresentar um chekup completo e um atestado de saúde? Ok, então de agora em diante o MP – Ministério do Preconceito adverte: todo mulherão deve apresentar um atestado de boa saúde. Sim, a exigência é só para mulherões, porque de acordo com as palavras idiotas do indivíduo, presume-se que mulheres magras não desenvolvem diabetes, hipertensão arterial, esteatose hepática não alcóolica, cardiopatias, câncer, tuberculose, anemia, hepatite, reumatismo, arteriosclerose, e tantas ouras doenças que podem acometer qualquer ser humano. Principalmente aqueles que ao invés de procurar buscar viver com alegria, perde seu tempo e sua saúde remoendo mágoas, semeando a discórdias, sentindo inveja, se preocupando muito mais com as vestimentas e a forma física dos outros do que com a sua própria vida.

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Sapato velho

Por Keka Demétrio

Outro dia encontrei uma amiga que há muito tempo não via. As primeiras palavras delas foram: Poxa, keka, como você está linda, está mais magra! Cai na gargalhada e respondi: Não, Lú, estou menos gorda, porque quem é gordo não fica mais magro e sim menos gordo.

Ela quis se justificar achando que havia me magoado, mas expliquei que tenho isso muito bem resolvido dentro de mim e que ela não me achou mais bonita por eu ter eliminado algumas das minhas fartas dobrinhas, e sim porque eu mudei para muito melhor a forma como encarar a vida.

A Lú é uma mulher muito bonita, mais ou menos da minha idade, casada desde os 22 anos, tem uma carreira legal, e não tem filhos. Fiquei olhando para ela e mesmo a achando linda, com seus cabelos castanhos cacheados, havia algo que ofuscava o brilho daquele sorriso.

Sempre achei estranho o fato dela não ter tido filhos, já que desde a nossa infância seu sonho era ser mãe. Então, nesse papo de reencontro, descobri o porquê ela aparentava conservar o mesmo corpo de quando tinha seus 18 anos: o marido nunca aceitou que ela engravidasse, pois na cabeça doentia dele aquele corpão de parar o trânsito iria virar, literalmente, um bucho. Além de controlar o peso dela 48 horas por dia, ele não se importa que ela gastasse rios de dinheiro em clinicas de estética, afinal, assim penso eu, ela é para ele um troféu (acho que estou odiando ele).

Relembramos a nossa adolescência agitadíssima e cheia de sonhos, quando saíamos para as baladas apenas com o intuito de nos divertirmos, dançar, rir, paquerar, mas sem neuras de segundas, terceiras, quartas ou quintas intenções. Naquela época, o relógio marcava as mesmas exatas 24 horas, porém não havia a urgência que sentimos nos dias de hoje. A leveza com que lidávamos com nossas perdas e ganhos era algo fantástico. Chorávamos, ríamos, apaixonávamos em um dia para desapaixonarmos no outro, e mesmo não possuindo idade para sermos totalmente responsáveis pelas nossas vidas, nós deixávamos nossos sonhos nos conduzir.

Na medida em que relatava sua saga matrimonial, ela passou a representar para mim as milhares de mulheres que deixam suas vidas de lado para servir de figurante na vida dos seus companheiros (que de companheiro não tem nada). Vivem à sombra do que convém a eles, dizendo sim ao que desejam e não para si mesmas. Criando dentro de si mesmas um repositório de tristezas que somatiza e causa diversas doenças, como por exemplo, o câncer. Em alguns casos, companheiros com pensamentos tão egoístas, abandonam o seu troféu, quando percebem que os lindos cabelos sedosos estão caindo por causa da quimioterapia.

Ninguém está imune de ter qualquer tipo de doença, mas que venha de forma natural e não pela amargura, pelo desencanto e pela falta da vida que deixamos alguém nos  roubar. Relacionamento é troca de fluídos, de amor, de compreensão, de alegrias, de conquistas e às vezes até de ofensas, mas é troca. Eu dôo e você me doa, e juntos a gente constrói.

Dizem que para cada pé calejado existe um sapato velho. Pois que o meu me calce muito bem, sem me apertar, sem querer conter meus passos, que queira caminhar comigo por pedregulhos e pelas areias macias da praia, pois se não for assim, retiro o sapato e o deixo de lado para caminhar descalça, na certeza de que qualquer ferida que me marque a vida foi por única e exclusiva vontade minha.

 

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