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O coração tem razões que a própria razão desconhece

Por Eduardo Soares

Blaise Pascal era um frasista de marca maior. Além dessa pérola, temos outra frase bastante conhecida (e utilizada no presente) do mesmo autor: “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão.” Pascal morreu em 1662 porém suas frases continuam atuais o que deixa uma interrogação na minha cabeça. Seria o francês uma espécie de visionário, aquela pessoa que vive anos luz da sua realidade?

Recentemente uma amiga veio desabafar. Moça nova, foi precoce em quase todos os aspectos da vida como por exemplo o casamento. Com menos de vinte anos (precisamente aos desenove) ela ostentava um aliança na mão esquerda. Mas até chegar nesse ponto, muita coisa aconteceu antes.

Cintia (nome fictício) era daquele tipo de menina caseira que vivia para estudar, estudar e estudar. Timida, não era do tipo que fazia muitas amizades. Mas ao mesmo tempo, ela chamava atenção por onde passava devido a sua beleza impactante: pele branca, cabelo preto na altura da cintura e olhos castanhos claros. Dificil não notar sua presença, mesmo que ela não fizesse nada para aparecer. Num desses dias em que saía da escola, surgiu Pedro, verdadeiro sujeito maluco beleza. Roqueiro assumido, cabeludo, barba por fazer, andava sempre de preto para todos os lugares, com direito a pulseiras de couro, botinas, bandanas e até anéis de aço em formatos de caveiras. Criatura mais punk, impossivel. Através de conversas despretenciosas ele foi entrando naquela mente praticamente intocável de Cintia e esta ao mesmo tempo começava a conhecer um lado romântico daquele quase ogro. Ambos pareciam os personagens do conto A Bela e a Fera. Ela, linda, amorosa, delicada; ele, sujo, avesso a cultura, parecia um Peter Pan bêbado largado na madrugada.

Sabe-se lá por qual motivo, Cintia começou a ficar interessada em Pedro que por sua vez abriu o coração para receber todo encanto da menina. Juntos, adolescentes, pessoas de mundo completamente diferentes, dois jovens com perspectivas distintas a respeito da vida (ela já traçava algumas metas enquanto ele traçava garrafas de uísque ao som de qualquer banda heavy metal), e talvez fosse esse o único motivo compreensível para justificar o romance inusitado, ambos eram iniciantes na arte do namoro.   Ela começou a trabalhar numa pequena loja enquanto ele só vivia para estraçalhar as janelas da casa ou os tímpanos dos vizinhos com aquela musica alta, cujas letras eram praticamente incompreensíveis, dada a rapidez que os vocalistas utilizavam para “cantá-las”. O amor de Cintia era tamanho que ela fazia de tudo para que Pedro fizesse parte do seu mundo, ou seja, ele precisava desplugar-se do som para ficar plugado na vida, no futuro, nos estudos, numa carreira qualquer. Reticente, Pedro sempre saia pela tangente e de certa forma conseguiu tapear Cintia por cinco anos. Sim, metade de uma década foi dedicada para que alguém, o dono daquele amor inexplicável, pudesse ser um homem de verdade e não uma caricatura de gente grande.  Dias, meses, anos e o panorama era o mesmo. Os adolescentes já estavam beirando os vinte anos e por isso era hora de tomar atitudes condizentes com a idade. Cintia se perguntava o porquê daquele amor. Outro dia citei uma frase mais ou menos assim “gosta-se da pessoa errada; sabemos que essa pessoa não trará nada de bom para nós, mas mesmo assim continuamos gostando”.  O coração tem razões que a própria razão desconhece.

Era hora do ultimato. Cintia percebeu que daquele jeito não havia amor no mundo que justificasse sua estagnação para a vida. Com isso, aconteceu um imenso conflito interno: o amor inexplicável, grandioso e delicioso versus os fatos recentes que apontavam um fracasso no que diz respeito a pouca perspectiva de vida ao lado de Pedro. Foi nessa hora em que a razão falou mais alto e Cintia deu um basta em tudo. Pedro ficou sem chão afinal ela era seu alicerce, a menina de família que daria o mundo por ele não aguentou a triste e imutável realidade. Deram um tempo, ela tocou a vida e ele também. Só que vem a famosa recaída e três meses depois, ambos voltaram. Cintia pensou que tudo seria diferente, afinal Pedro tinha aprendido a lição. Ledo engano. Para simplificar, como diriam os antigos, a emenda saiu pior que o soneto e o namoro recém-retomado perdeu o rumo de vez. O amor de Cintia era tamanho que, mesmo sem culpa, ela cultivava um inexplicável fracasso por não ter conseguido mostrar a Pedro como a vida realmente deveria ser aproveitada.

Uma semana depois do término, Pedro sofreu um acidente de moto onde veio a falecer aos vinte e três anos de idade. Agora, era o mundo de Cintia que não possuía solo. Todos os piores sentimentos existentes ecoavam em sua cabeça. Os três meses seguintes foram terríveis e, mesmo fragilizada, a moça retomava aos poucos o rumo da vida. Carente, confusa, amedrontada, na mesma época ela cedeu aos encantos de um rapaz que dias depois vinha a ser seu marido.

 

O casamento perdura até hoje e na verdade parece ser uma cópia fiel do que foi o primeiro namoro. Perdida entre remorso, ausência total de sentimentos e doces saudades, Cintia sobrevive, aos vinte e dois anos, com coração cansado de quem teve (e talvez nunca mais terá) um adorável amor bandido.

Em meados do século XVII, Blaise Pascal disse que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Quatrocentos anos depois os tempos são outros e os desafios que cercam o amor são os mesmos. E talvez nunca mudem.

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Quero Folga.

Por Keka Demétrio

Você está rodeado de gente e se sente sozinho e entediado.  Valha-me deus, porque será que nós só nos sentimos vivos se o coração estiver batendo em ritmo descompassado? Paixão, amor, tesão, atração, ou quaisquer outras cositas mais que me esqueci de colocar na lista. O mais engraçado é que o coração fica cheio de um sentimento que faz com que a vida pulse em um ritmo delicioso, mas a danada da cabeça insiste em te lembrar a todo instante que as coisas não são bem um conto de fadas, que o príncipe encantado não existe e que você vai ter sempre que lutar muito pra conseguir o que deseja.

Quero folga. Quero um bom tempo longe desses pensamentos que me fazem ter atitudes que dificultam de verdade a vida. Não quero acordar e de imediato já deixar minha cabeça mandar em meu coração. Acordar me lamentando como o dia será longo e que tenho mil afazeres inadiáveis não vai alterar os compromissos que já assumi, mas a forma como penso sobre eles pode fazer toda a diferença. Então, quero ao despertar, dar um tempo para espreguiçar longamente meu corpo, deixar as lembranças de momentos fantásticos que vivi outro dia tomar conta de mim e estampar em meus lábios um sorriso lindo, isso dá ânimo e vitalidade. Quero poder dizer bom dia para mim mesmo, afinal, sou a peça mais importante do meu próprio dia.

Vou deixar a minha emoção explicar algumas coisas para a minha razão, e que se dane o se, o por quê, o talvez, o quem sabe, quero mais é acreditar que tiro todos eles de letra, e que eu sou a dona das minhas ações e não as convenções existentes.

Definitivamente não quero matar um leão por dia. Pensar assim é aterrorizante e me dá a sensação de que realmente as coisas são muito difíceis e que sempre precisarei de um esforço homérico para viver. Eu não quero acreditar nisso, sou muito sonhadora para achar que a vida é uma eterna luta. Não quero pensar em dificuldades, quero que meu coração ensine à minha cabecinha que eles podem trabalhar em sintonia e que eu não perderei a sensatez e nem as rédeas da minha vida por causa disso, agindo assim, apenas vou deixá-la mais leve.

Quero mais é viver a vida dia após dia com o mesmo entusiasmo de uma adolescente que acabou de se apaixonar, oferecendo sorrisos, afagos, carinho, amor, e criando um conto de fadas cheinho de emoções, que é para o meu coração ficar sempre muito descompassado.

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Transplante cardíaco

Por Eduardo Soares

Quarenta e dois anos atrás, mais precisamente em 26/05/68 aconteceu o primeiro transplante de coração do país. O feito ficou a cargo da equipe chefiada pelo Dr. Euryclides Zerbini que desde então virou referência mundial na então nova área da medicina. Relatos de pessoas próximas afirmam que o Dr. Zerbini trabalhou até o fim da vida (faleceu aos 81 anos em 1993), não apenas efetuando suas famosas cirurgias como realizando palestras e conferências.

Falar das nossas qualidades é sempre maravilhoso. Basta um elogio:

– Ooohh, Maricota! Como você está linda hoje! Está parecendo uma Barbie serelepe e pimpona do subúrbio! Sua cútis nunca esteve tão lisa! Já sei: o marido anda comparecendo às segundas, quartas e sextas com bônus aos sábados, domingos e feriados, né? Sua danadinha…

Não importa se ele vem daquela sua amiga tipo “fura-olho” que dá uma de “estou aqui para tudo” mas na verdade não segura a língua e desanda a falar da sua intimidade para todos os bairro. Se tivesse outdoor, ele colocaria anúncios como: “Faz uma semana que Maricota não menstrua. E ela anda às turras com Juventino. Ontem voou panela na cabeça dele. Chupa essa manga, amiga!!!”.

Agora uma coisa é fato: se a mesma amiga fura olho pisar no seu calo, inevitavelmente você vai mandar um “o que vem de baixo não me atinge” para depois ficar sem falar com a pessoa por uma, quem sabe até duas semanas. Recebemos e aceitamos elogios sem pensar qual é a procedência deles, diferente do que acontece com as criticas. Aliás, você exerce autocrítica?

Ninguém melhor para analisar meus erros do que eu mesmo. Só eu sei o que vivi, quais foras as vitorias e derrotas, o que tive de bom e ruim ao longo da minha historia e por fim o que fazer para tirar as coisas nocivas de mim. Posso falar com propriedade sobre determinado tópico dentro desse assunto, pois é algo que trabalho bastante para amenizar ou eliminar de vez da minha vida: sou vingativo e nutro certa simpatia por esse sentimento.

Sabe, às vezes fico imaginando o que ocorre dentro de nós quando alimentamos coisas ruins: com o passar do tempo, na medida em que guardamos sentimentos nocivos como rancor, egoísmo ou ódio dentro do coração, visualizo-o mudar de cor, passando do vermelho vivo para o preto e aos poucos sua aparência ganha contorno asqueroso, ficando ressecado, imundo, podre. Ganhamos então um coração em estado vegetativo. Continuamos vivendo, mas sem percebermos somos apenas mortos-vivos, fantoches em farrapos daquilo que um dia sonhamos ser.

Se você acha que no estado atual as seqüelas existentes dentro do seu peito são grandes demais, que sua confiança, admiração, respeito e entrega foram retribuídas através de porradas dadas por aqueles que tiveram tudo isso de ti, faça um transplante de coração. Jogue o atual fora, pois ele fará com que seus sonhos sejam mortos e até aqueles elogios vindos de pessoas que gostam realmente de você serão apenas boas lembranças do passado.

Como todo transplantado, você terá uma nova vida. Você estava fraca, desanimada, apenas vivia, sem ter a menos noção do significado do verbo “viver’’. Conjugue novos verbetes: resgatar, alegrar, idealizar, amar. Tudo aquilo que a insuficiência cardíaca não permitia, agora você poderá e irá fazer. Troque seu coração antes que sua vida entre em coma irreversível.


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