Arquivo da tag: gordinho

“Não namoro gordo”

Imagem

Imagem

Fotos: Daniel Burattini

Por Cintia Rojo 

Eu sei que isso poderá se voltar contra mim mas vou logo avisando: a frase do título não é minha mas de uma menina gorda que conheci num evento de moda. Estávamos no backstage de um desfile e tricotávamos deliciosamente sobre amor… AHHH O AMOR!

Alguns anos atrás ela afirmava categoricamente que jamais namoraria um gordo. Quando algum gordinho queria se sentar ao lado dela, para puxar conversa, ela fechava a cara e fazia piadinhas de mau gosto para desencorajar qualquer tentativa do moço. Mas o amor…. AHHHH O AMOR! Esse é um danado que nos pega de um jeito e não nos deixa em paz até achar um lugarzinho pra ficar de vez. E foi o que aconteceu com a menina. Um gordinho dobrou o coração da fofete, conquistou-a, e eles estão noivos há quase três anos. Planejam casar e passeiam, lindos, de mãos dadas, pra quem quiser ver.

Nós somos vítimas de todo tipo de preconceito porque somos mulheres, porque somos gordas, porque temos celulite, porque isso, porque aquilo. Aprendemos na pele o quão difícil é amar e se sentir amada quando somos vistas de maneira superficial. Somos incríveis, sabemos disso, mas não temos a chance de revelar o quão incríveis somos.

Quase consigo entender se ouvir essa frase de uma pessoa magra. Normalmente nos assustamos quando nos apaixonamos por alguém tão diferente de nós – o cara é mais novo? Mais pobre? Mais baixo? Mas quando nós, gordas, decretamos que não namoraremos homens gordos, estamos assumindo a mesma postura daqueles que nos olham de maneira superficial e preconceituosa. É velado, não declarado, mas estamos sendo preconceituosas. Se queremos que as pessoas nos enxerguem além do nosso peso, devemos agir assim com os outros. Que homem vai se revelar incrível se for tratado como “Seu Barriga”?

Felizmente o amor não dá a mínima para os nossos decretos. No amor não existe essa de escolher.  Não é como comprar uma casa, um carro, uma lata de atum em conserva.Você pesquisa critérios e racionalmente toma sua decisão. Mas com amor não tem disso não, porque ele gosta de jogar com a nossa racionalidade. Mesmo que você tenha feito suas escolhas, ele tem vontade própria e se você disser que não namora gordo, prepare-se! Um gordinho pode pintar no seu pedaço e conquistar seu coração.  

13 Comentários

Arquivado em Relacionamento

Gordas que não gostam de ser chamadas de gordas

gordinha

Foto: mulher de 30

Por Renata Poskus Vaz

A palavra gorda, que tanto me assustava quando eu ainda lutava para ter um corpo magro, hoje faz parte do meu vocabulário. Antes, eu tinha pavor de ser chamada de assim. Era a morte. Ofendia mesmo, de fazer meus olhos lacrimejarem em questão de segundos.

Em 2009 fiz um texto exatamente sobre isso. Para ler, clique aqui. Na época, eu disse que a palavra gordo, em latim, significava grotesco e estúpido e mulherões como nós não merecíamos ser chamadas de tal forma.

Enquanto o tempo passava, fui convivendo com mulheres bem mais gordas do que eu e que pouco se importavam quando eram chamadas assim. Muito pelo contrário, elas mesmas se auto-intitulavam gordas. Era um tal de gorda pra cá, gorda prá lá, que virou música para meus ouvidos. Fui percebendo que a palavra gorda tem poder ofensivo porque nós damos essa carga negativa para ela.

Gorda é uma palavra. Só isso. E comecei a usá-la. Quanto mais me referia a mim mesma como gorda, menos as pessoas me chamavam assim. Parece psicologia reversa. Quando você deixa de se incomodar, ninguém mais te chama desta forma. No entanto, esqueci que o poder negativo da palavra havia desaparecido para mim, mas que isso não significa que o restante do mundo também teria que, de uma hora para a outra, achar super bacana ser chamado de gordo.

Há alguns meses, conversando com um amigo que estava acima do peso, chamei-o de gordo. Calma, não partiu de mim com a intenção de ser uma ofensa e estava inserido em um contexto. Recordo que estávamos falando sobre nossas novas amizades e ele comentou que estava malhando muito, porque seus novos amigos eram todos sarados. Diante disso, ele sentia essa necessidade de se sentir inserido na galera se esforçando para adquirir músculos. Eu, então disse: “Amigo, mas você sempre foi gordo. Não vá se esforçar demais, pois este é o seu biotipo”. Meu Deus! A casa caiu. Vi uma amizade de anos acabando ali. Falei demais. Ele se ofendeu, disse que só porque não ligo de ser chamada de gorda que não tinha o direito de chamá-lo assim. E nunca mais nos falamos. Óbvio que achei um exagero por parte dele, mas tenho certeza que se fosse comigo, há uns 6, 7 anos, eu teria agido da mesma forma. Também me sentiria ofendida.

 Porém, embora tenha sofrido com a distância do amigo, eu não havia aprendido a lição. Semana passada, na academia, batendo papo com uma colega de turma com o corpo bem parecido com o meu, discutíamos se era possível ou não perder peso com a aula de hidroginástica. Então, eu disse: “ah, acho que nós que somos gordas conseguimos perder um pouco de peso sim”.  Gente, o rostinho lindo e sorridente da minha colega se transformou no semblante mais triste que vi nos últimos tempos. Vi na cara dela o quanto a magoei falando que era gorda. De repente, ela nem se considera como uma mulher gorda e o fato de eu me colocar no rolo, não diminuía a sensação ruim que ela estava sentindo. Sensação essa que eu conferi com minha indelicadeza. Pedi desculpas, mas desculpas não apagam palavras proferidas.

Dia desses, na Fan Page do Blog Mulherão no Facebook, houve reação parecida por parte de uma leitora, que pediu que eu parasse de usar a palavra gorda e usasse “fofinha”. Claro que não farei isso, mas achei curioso o pedido. Ainda tem gente, aliás, muita gente, que se ofende com isso.

Cheguei à conclusão que não podemos pressupor que as pessoas tenham o mesmo grau de autoestima do que nós, ou mesmo que tenham autoestima, que sejam obrigadas ou que gostem de se autodenominar como gordas. Tudo o que é forçado, imposto, não é natural.

Continuarei, é claro, me referindo às mulheres gordas como gordas em minhas redes sociais, de forma genérica, pois aqui é meu espaço para me expressar e me recuso a usar palavras no diminutivo, como fofinha, redondinha, gordinha… Diminutivos me reduzem e não combinam com um mulherão como eu.

No entanto, lá fora, no mundo real, tomarei mais cuidado para não ofender ninguém. Que eles são gordos eles são. Mas como diz minha amiga Keka Demétrio, “a verdade não é uma pedra, para sairmos atirando nos outros, machucando-os”. Então, vamos deixar que descubram sozinhos que ser gordo não é defeito.

48 Comentários

Arquivado em Bullying Nunca Mais, comportamento, Curiosidades